Eduardo A. Melo

Eduardo A. Melo
Não me perguntem...

Quem sou eu? Boa pergunta, muito boa... Quisera ter a resposta. Será que um dia saberei ? Eis outra boa pergunta. Taí uma coisa que sempre podem dizer de mim: eu sei perguntar. Um dia aprendo a responder.

E já que não sei quando, vamos sair do quando e ir para o onde, o que e o como, a parte do por quê também fica para uma outra hora.

Que peças compõem uma pessoa? Que pistas posso deixar a quem queira me conhecer, como um Sherlock Holmes ou melhor ainda, como Miss Jane Marple de Agatha Christie, para quem a natureza humana é a mesma em qualquer lugar, seja numa metrópole, seja num povoado, e qualquer pessoa sempre lembra outra que ela conhece? Vejamos:

Eu nasci há dez mil anos atrás; pelo que me lembro, mas pode ter sido um pouco antes ou um pouco depois, não tenho certeza. Ao contrário do Raul Seixas, que diz que não tem nada neste mundo que ele não saiba demais, ainda tenho muito o que aprender. Bem por isso acho que uma vida apenas é muito pouco, irrisório demais, curta demais. Viver cem anos? Hum, talvez não seja esta a solução. "Who wants to live forever?" perguntava Freddie Mercury. Não se preocupe que eu não vou filosofar: meu colega Beto Canhoto é quem filosofa, eu apenas divago... E ele, divaga com o bem-te-vi...

Não fiz maternal, mas fiz jardim de infância e pré primário. Fiz catecismo para adultos com 19 anos e aí fiz a primeira comunhão, antes disso fui batizado, tudo dentro do protocolo da Igreja Católica Apostólica Romana. Não consegui escapar da crisma. Até os 39 anos não sabia o que era intolerância religiosa (Deus é um só), num noticiário da TV pude ver o que é fundamentalismo terrorista. Muito antes já tinha participado de vários movimentos da igreja e fui líder de alguns movimentos por algum tempo. Meu pai foi espírita Kardecista, minha mãe é católica, e isso para não mencionar primos ateus, tias agnósticas, protestantes, corintianos, etc. Depois de uma crise conjugal que resultou em separação, hoje não freqüento mais a Igreja, mas trago boas lembranças daqueles tempos.

A primeira professora que pegou em minhas mãozinhas, seja para fazer bolinhas, tracinhos e zigue-zagues foi e sempre será Maria Mercedes Picelli e o seu Jardim de Infância Menino Jesus. A primeira professora, será então a segunda(???) que fez acontecer a alfabetização em si foi Dona Lurdes Picelli, pois com ela deixamos de fazer bolinhas, tracinhos e zigue-zagues e aprendemos o be-a-bá e abrimos então as primeiras folhas da Cartilha Caminho Suave. São para mim, Mercedes e Lurdes Picelli as duas primeiras professoras, e com muito mérito sem um só traço de dúvida de minha parte.

Cartilha Caminho Suave - Foi um baque descobrir algum tempo atrás que esta cartilha estava na lista dos não-recomendados pelo Ministério da Educação... Os pés do meu ídolo eram de barro? Os alicerces da minha torre ruíram? Será que eu aprendi a ler? De uma hora para outra tudo o que eu sabia foi reduzido a pó, a nada, por uma canetada de um tecnocrata do Planalto Central.

Comecei a ler livros muito cedo: com quase nove anos eu devorava gibis e revistas de variedades, Seleções do Reader's Digest, Enciclopédia Barsa, Enciclopédia Trópico, a coleção completa do Malba Tahan. Férias escolares eram sinônimo de visitar minha bisavó, primos e as tias em Assis, SP. Devorava ovo frito com gema mole e pão molhado no shoyu. Vitaminas de abacate com Sustagen era a receita predileta de minha bisavó para os bisnetos que não comiam direito. Talvez seja por isso que sempre fui magricela. Naquele tempo não havia nenhum latifúndio improdutivo que o MST pudesse invadir. Cansei de ter os joelhos e canelas esfolados para aprender a andar de bicicleta, nas ruas desertas e empoeiradas ou nas ribanceiras cheias de mato, carrapichos, raízes de arvores da estrada para o Rio das Cinzas.

Gosto de mitologia. Egípcia principalmente, grega também, é claro. Assistia ao Enigma todo santo sábado na Rádio e Televisão Cultura, RTC. Com advento da parabólica passei a assistir Olho Vivo, Discovery Channel e tantos outros...

Ultimamente ando péssimo com nomes: nomes de pessoas, nomes de bandas, títulos de livros, de filmes, de músicas, números de telefones... Com isso fiquei craque em sinopses e reticências: " Você assistiu aquele filme com a ... (plec, plec, plec) aquela atriz que fez o ... (plec, plec, plec) com aquele ator, o ... (plec, plec, plec), o de bigode, lembra?? Aquele que ele morre no final??" Esqueci o email do... (plec,plec,plec). Hoje estou lendo o livro "O Código de Da Vinci", taí não me lembro o autor... (plec,plec,plec) aliás acho que não me lembro que página parei...(plec,plec,plec).

Por falar em filme, assistia todos os dias a Sessão da Tarde, com a Sophia Loren e o busto dela (deve ser daí que existem os sutiens Du Loren) . La Loren era uma pobretona [claaaro] por quem um nobre se apaixona, mas para que se casassem ela precisava vencer uma competição de lavar pratos sem os quebrar [!!!]. Mas, lógico que existe a vilã, aquela que parte os pratos da pilha da Loren com a pedra do próprio anel. E claro que existe o aliado da pobre Loren que descobre a trapaça e conta ao nobre, e, óbvio ululante, eles se casam e vivem felizes para sempre, depois de castigar a malvada. Junto com os filmes do Jerry Lewis sem o Dean Martin, esse era o meu preferido.

Eu assistia Os Muppets e a inesquecível Miss Piggy (a porquinha) com seu namorado Caco (o sapo), Vila Sésamo (grande Garibaldo!), Sítio do Pica Pau Amarelo (saudade da Dona Benta...) Hoje passa novamente mas não é a mesma coisa, tem algo diferente que não sei explicar. Foi a partir dos desenhos japoneses que percebi o quanto eu gosto de olhos. Não me importa a cor, não me importa formato ou tamanho, sou vidrado por olhos, quem acompanha o Veja Andirá sabe disso. Detesto fotos de gente com óculos escuros ou olhos baixos, dissimulados. Vem daí a minha birra com a Capitu do Machado de Assis.

E assim, como num círculo vicioso, voltamos ao quando, ao hoje, aos amigos e o produto mais prazeroso disso tudo: fazer o Veja Andirá.

Há muito tempo não ficava por horas a fio escrevendo, as palavras escorrendo como sangue nas pontas dos dedos derramando sobre o teclado do computador, mas o fim chegaria tarde e talvez não encontrasse tudo pronto.

Este acho que sou eu.
Esta talvez é uma parte de mim.

Eduardo A Melo
10/07/2005