Vida de aposentado.
Como programar sua aposentadoria e utilizar o tempo disponível.
Experiência pessoal.



1. Programar a aposentadoria: eis a chave do sucesso.
Após mais de quarenta (40) anos de exercício ininterrupto da magistratura, nas diversas comarcas do interior e da capital, nos tribunais de Alçada e de Justiça do Estado, fui obrigado a me aposentar, em decorrência da idade limite - setenta (70) anos -, prevista na Constituição Federal.
A aposentadoria compulsória não me perturbou, porque sempre pautei a minha vida pelo ensinamento bíblico, extraído do Eclesiastes (3, 1-8):
"todas as coisas têm o seu tempo, e todas elas passam debaixo do céu segundo o tempo que a cada uma foi prescrito. Há tempo de nascer, e tempo de morrer. Há tempo de plantar, e tempo de arrancar o que se plantou..."
Assim, há tempo para trabalhar, e tempo para se aposentar. Por isso, nos últimos anos que antecederam a aposentadoria, já fui-me programando para a nova vida: sem compromissos diários obrigatórios (despachos, liminares, sessões de julgamento); sem horários fixos para as minhas atividades (chegada e saída do gabinete de trabalho); sem precisar cumprir prazos (despachos, decisões liminares ou definitivas; julgamento das ações e recursos).
Um acontecimento ocorrido em minha vida, no entanto, veio facilitar essa adaptação logo após a aposentadoria: a designação pelo Presidente da Associação dos Magistrados do Paraná (AMAPAR) para ocupar o cargo de diretor-geral da Escola da Magistratura do Paraná (EMAP). Com isso, nos quatro (4) meses que antecederam à minha aposentadoria, passei a exercer aquela honrosa função pelo prazo de dois (2) anos.

2. Atividades iniciadas e outras intensificadas, após a aposentadoria.
Concluído o meu mandato na EMAP, outras atividades foram por mim programadas: curso de especialização em Processo Civil; aulas de Italiano e de violão e conciliador voluntário, junto à Secretaria de Conciliação do Tribunal de Justiça.
A par de tudo isso, passei a integrar o coral da Associação Brasileira de Recursos Humanos; a realizar estudos e pesquisas em meu escritório diariamente e a elaborar artigos jurídicos, que são publicados em jornais e revistas especializados. Além disso, quando solicitado por escritórios de advocacia ou por faculdades de Direito, da Capital ou do Interior, tenho proferido palestras sobre temas relacionados a matéria de Processo Civil.
Não dispenso, também, as minhas atividades sociais e de lazer. A companhia de minha família: esposa, filhos, nora, neto e parentes, nos almoços semanais, nas reuniões festivas: aniversários, casamentos e outras. A freqüência às sessões de cinema, a uma peça teatral ou a um concerto nos teatros de cidade. A leitura de jornais, revistas e livros, também fazem parte da minha rotina diária.
Na parte alimentar, já há alguns anos passei a cuidar da minha alimentação: deixei de comer carne vermelha e de tomar bebida alcoólica; tenho procurado: ter uma alimentação mais saudável: saladas, frutas e sucos, e dispor de maior tempo para as refeições, de forma a poder mastigar mais ainda os alimentos ingeridos.
Sempre gostei de praticar esportes. Por isso, na parte física, pratico, há mais de três décadas, a natação e as caminhadas, aquela em Escola especializada, próxima de minha residência, e estas nos parques de Curitiba, preferencialmente no Passeio Público e no Parque Barigui. São duas atividades que me dão muito prazer.

3. Utilização do tempo disponível.
Outra vantagem de estar aposentado diz respeito à disponibilidade de tempo. Agora, posso programar minhas viagens para praia ou para outros locais, do Brasil ou do exterior. Conhecer outros países, seus usos e costumes; conviver com pessoas, trocar idéias e conhecimentos, sempre é motivo de satisfação. Jogar conversa fora nas manhãs de sábado na Boca Maldita ou caminhar pelo calçadão da Rua XV são atividades impossível de se fazer antes da aposentadoria.
Com relação ao ítem lazer, não posso esquecer da alegria de ser avô. Penso que a natureza é perfeita ao conceder aos idosos o prazer de conviver com seus netos. Eles são os homens e as mulheres do futuro. Necessitam de bons exemplos e de uma orientação segura que são adquiridos principalmente de seus pais, mas os avós, também, podem contribuir para que isso aconteça, dentro de certos limites, é verdade, porque a última palavra sempre deve ser dada pelos pais.
Tenho um neto, que me tem dado muita alegria e felicidade. Pedro é seu nome. É um doce de criatura: inteligente, vivo, de memória inigualável, esperto e muito amigo. Nosso relacionamento tem sido fora do comum, talvez porque ele sempre diz que gosta das coisas antigas.

4. Aos futuros e atuais aposentados, um conselho.
Aos que estão prestes a se aposentarem ou que já se encontram aposentados, permitam-me que lhes dê um conselho ou orientação: a vida continua e deve continuar para melhor; o tempo, agora, é integralmente disponível; basta ocupá-lo com aquilo que não era possível fazer e que todos nós gostaríamos de fazer durante o exercício de nossa profissional. Nesse tempo, por que não incluir uma atividade voluntária, no próprio local onde o aposentado exercia o seu trabalho, ou em qualquer outra que seja de interesse da comunidade ? Servir ao próximo, sem retribuição, é um ato dignifica o ser humano, porque sempre é realizado sem qualquer interesse pessoal.
Nesse sentido, tenho um exemplo pessoal. Logo que foi criada a Secretaria de Conciliação pela presidência do Tribunal de Justiça, já me inscrevi como conciliador voluntário. Esta é uma das funções principais do magistrado. Nessa nova atividade, não há aquela preocupação de o juiz ter que acompanhar todo o trâmite da ação, desde o exame da inicial até o julgamento final. A finalidade, agora, é outra: contribuir para por termo ao litígio, devolvendo às partes a paz. Tal trabalho é muito gratificante, sobretudo quando você consegue obter um acordo, que atenda aos interesses e às possibilidades das partes, de forma que elas possam sair da audiência reconciliadas e satisfeitas com o que foi acertado.

5. Palavra final.
A finalidade principal deste depoimento é apresentar àqueles, que estão prestes a se aposentarem e àqueles que já se aposentaram, a experiência que, agora, estou vivenciando, nessa nova fase da vida, bem como demonstrar que é possível aproveitar bem o tempo disponível de aposentado, não só dando maior atenção à família, mas também às outras atividades - lazer e voluntariado -.





Accácio Cambi
DEPOIMENTO DE UM JUIZ QUE DESCOBRIU SUA VOCAÇÃO EM ANDIRÁ E QUE RELATA FATOS MARCANTES DE SUA VIDA DE MAGISTRADO.

Accácio Cambi



Foi, em Andirá, em meados de 1949, que surgiu minha vocação para a magistratura, quando ali residia, juntamente com meus pais e irmãos.
Na época, exercia o cargo de datilógrafo do Cartório Criminal, que acumulava Registro Civil e Eleitoral, pertencente a Francisco Borges Negrão, ocasião em que tive o prazer de conhecer o Dr. Marino Bueno Brandão Braga, primeiro juiz de Direito da Comarca, e que, mais tarde, foi Corregedor Geral da Justiça e Presidente do Tribunal de Justiça do Paraná.
Naquela função, cabia-me, entre outras obrigações, registrar as sentenças proferidas pelo Juiz de Direito. Pois bem, foi justamente quando exercia tal atividade - lendo e registrando manualmente as sentenças -, é que surgiu minha vocação para magistrado. Devo, portanto, ao Desembargador Marino Braga meu orientador, antes do concurso e durante toda a minha vida de juiz, os maiores agradecimentos por tudo que dele aprendi para melhor exercer as funções judicantes.
Minha vida de juiz no interior foi longa. Exerci a magistratura por quatorze (14) anos nas Comarcas de Irati, Pato Branco, Reserva, Paranacity, Ribeirão Claro e Apucarana. Em Curitiba, fui juiz de Direito Substituto e juiz de Direito; fui juiz do ex-Tribunal da Alçada; depois, desembargador do Tribunal de Justiça, onde exerci o cargo de Vice-Presidente, até ser aposentado compulsoriamente.
Relato, a seguir, alguns fatos, ocorridos nas diversas Comarcas do interior do Estado, quando exerci a magistratura e que foram marcantes na minha vida profissional:

1. Comarca de Pato Branco.
Ali, presidi meu primeiro Júri. Recordo-me que o processo já estava pronto para julgamento; dele participavam, na acusação, o Promotor de Justiça e o Assistente de Acusação, e dois (2) advogados de defesa. O julgamento iniciou-se às 13:00 horas e encerrou-se às 4:00 horas da madrugada do dia seguinte. No decorrer dos debates, tive certa dificuldade em conduzir a sessão: eram profissionais do Direito experientes e altamente competentes, enquanto que o juiz estava iniciando a sua carreira.
Concluído o julgamento, perguntei ao Promotor, Dr. Josafat, o que ele tinha achado da minha atuação na presidência do Júri. Antes de responder-me, o Dr. Josafat balançou a cabeça e disse-me: "Foi tudo bem". Mas, diante da sua resposta, que não me convenceu, insisti em saber mais alguma coisa a respeito, foi quando ele me adiantou: "Durante os debates, houve uma discussão sobre matéria legal e você demonstrou certa dificuldade para resolvê-la, de pronto; você deveria ter suspendida a sessão para poder examiná-la em seu gabinete e, depois, reabrindo a sessão, você decidiria a questão, com mais segurança".
Essa foi uma grande lição, que me orientou na presidência de outras sessões do júri, realizadas em outras Comarcas do Estado.
Outro fato que ocorreu, na mesma Comarca, envolveu uma questão de direito.
Durante minha permanência em Pato Branco, fiquei hospedado no Hotel Dom Carlos, situado bem no centro da cidade. Numa certa noite, fui procurado pelo juiz de direito de uma Comarca vizinha, que já me conhecia, pois tinha sido juiz em Andirá. O juiz estava interessado em obter uma liminar, em ação de reintegração de posse, que seria distribuída no dia seguinte, patrocinada por advogado seu conhecido, tendo por objeto uma grande plantação de pinheiros, justificando que a causa era tranqüila e que poderia deferir a liminar, sem qualquer receio. Respondi-lhe que iria examinar os autos e daria uma solução rapidamente. No dia seguinte, tendo em mente a orientação, recebida do Desembargador Marino Braga, no sentido de que, nas possessórias, antes de apreciar a liminar, e havendo dúvida sobre a posse alegada, deve o juiz marcar audiência de justificação, com oitiva da parte contrária, examinei os autos e verifiquei que o autor tinha juntado cópia do contrato sobre uma área de pinheiros e no qual fundamentava o seu direito. Resolvei, então, marcar a audiência preliminar para a próxima semana, com intimação das partes. No dia da audiência, o advogado do réu peticionou nos autos, juntando o contrato original. Do confronto entre os documentos apresentados, notei que a cópia do contrato juntada pelo autor estava incompleta - o autor tinha omitido uma folha do contrato, na qual continha cláusula contrária a sua permanência no imóvel -. Por isso, indeferi a liminar, evitando, assim, um esbulho judicial, com conseqüências danosas para o proprietário do imóvel.

2. Comarca de Reserva.
A cidade possuía um único hotel: de madeira, sem luz elétrica e banheiro interno. O fato em destaque: às refeições, sempre era servido carne: de porco, de gado ou de galinha. Quando era ofertado carne de porco, por exemplo, os hospedes comiam esse tipo de carne a semana inteira. O mesmo acontecendo com as demais carnes.
Como o movimento do hotel era pequeno, desconfiei que a carne que sobrava no almoço era, também, servida no jantar. Para comprovar isso, certa vez, no almoço, peguei uma coxa de galinha, dei-lhe apenas uma mordida e coloquei-a novamente no prato. No jantar, para minha surpresa, a mesma coxa, desprovida do pedaço por mim tirado, foi novamente apresentado na mesa.

3. Comarca de Paranacity.
Em Paranacity, recebi, pela manhã, no meu gabinete um fazendeiro, reclamando do oficial do Registro de Imóveis, afirmando que o oficial, para registrar uma escritura, estava cobrando custas abusivas, pedindo-me que tomasse alguma providência. Escrevi um bilhete ao cartorário, solicitando-lhe que atendesse o portador e cobrasse as custas de acordo com o Regimento. Mais tarde, o fazendeiro voltou ao Fórum, procurando por mim para agradecer, pois o oficial o tinha atendido e cobrado as custas legais. O Escrivão do Cível que o atendeu, informou-lhe que o juiz estava em audiência e não poderia recebê-lo. O fazendeiro disse-lhe, então, que tinha trazido uma caixa de champagne para entregar ao juiz pela gentileza do atendimento. Por isso, o Escrivão indicou-lhe a residência do juiz - ficava bem atrás do Fórum -, recomendando-lhe que, se desejasse, poderia deixar a champagne na área da cozinha e voltasse, mais tarde, para falar com o juiz. Isto foi feito. Antes de encerrar o expediente, o fazendeiro voltou, falou comigo e relatou o que havia ocorrido. Na ocasião, agradeci a gentileza da oferta, porém pedi-lhe que retirasse a caixa de bebida da minha casa, afirmando que nada mais tinha feito do que cumprir a minha obrigação de juiz.
Outro fato marcante teve a participação do Promotor Substituto, Ronaldo Antonio Botelho. O Dr. Ronaldo foi procurado, em seu gabinete, por um criador de gados, reclamando que seu vizinho tinha-lhe furtado uma novilha, pedindo a intervenção do Ministério Público para solucionar o problema. O Promotor, que sempre atendia com presteza e solicitude o público, mandou intimar o suposto criminoso para discutir a questão no Fórum. Presentes as partes interessadas, o Dr. Ronaldo tentou de todas as formas solucionar o caso, evitando, assim, uma possível abertura de processo crime. Porém, não teve êxito. Daí surgiu-lhe uma idéia: sabendo que as partes eram católicas, que o vigário da paróquia, Padre Tadeu, estava fazendo uma campanha para construir a nova igreja e, mais, que o Juiz tinha bom relacionamento com o vigário, resolveu propor às partes uma solução salomônica, isto é, que as partes doassem a novilha para aquela campanha e o produto da venda do gado reverteria em benefício da construção da nova Matriz. Como as partes queriam sair bem daquela contenta, logo aceitaram a proposta do Promotor. O Dr. Ronaldo, então, combinou tudo comigo e, assim, em data fixada, nas dependências do Fórum, na presença das partes, do Juiz, do Promotor e do vigário local, a novilha foi "solenemente" entregue ao Padre Tadeu. Assim, tudo terminando maravilhosamente bem!

4. Comarca de Ribeirão Claro.
Nessa Comarca, conheci o Promotor de Justiça, Augusto Meluzzo, com o qual trabalhei durante o tempo em que atuei em Ribeirão Claro.
Eis o fato: passadas algumas semanas de minha chegada na Comarca, após já ter proferido várias sentenças, na área penal, em conversa com o Dr. Meluzzo, perguntei-lhe o que ele estava achando de minha prestação jurisdicional. Dr. Meluzzo me respondeu: "Acho que a sua atuação nos autos de ação penal é um pouco diferente do seu antecessor. O Juiz anterior, antes de julgar essas ações, comparecia no meu gabinete e nós - juiz e promotor - acertavam como a ação deveria ser julgada: procedente ou improcedência e as penas a serem aplicadas". Após ouvir tal exposição, disse ao Dr. Meluzzo que o meu "sistema" era um pouco diferente, pois sempre julguei com total liberdade, sem sofrer qualquer interferência de terceiros...

5. Comarca de Apucarana.
Foi, quando exercia minhas funções na Vara Criminal de Apucarana, que ocorreu este fato:
Logo nos primeiros meses que me transferi para a Comarca, o fórum da Comarca passou a funcionar, em caráter precário, no segundo andar do prédio da Prefeitura Municipal, porque o prédio tradicional da Comarca foi cedido à Municipalidade e o novo Fórum estava em fase de construção. Por isso, as sessões do Tribunal do Júri eram realizadas nas dependências da Câmara Municipal.
Certa vez, presidindo uma sessão do júri, durante a sustentação oral, entraram e sentaram na platéia meus pais, Aurélio e Joanna. Ali ficaram aguardando o final do julgamento para encontrarem comigo. Logo depois da chegada deles, suspendi a sessão para um rápido descanso dos jurados e fui conversar com meus pais. Nesse ínterim, o advogado do réu soube, através do Escrivão, que o casal, que ingressara na sala de julgamento, era meus pais. Retomados os trabalhos, o advogado pediu a palavra para sustentar a tréplica, porém, antes de iniciar sua defesa, resolveu saudar meus pais, e, também, elogiar a pessoa do juiz pela prestação jurisdicional que vinha desenvolvendo na Comarca, tecendo inúmeros elogios. Encerrada a sessão, voltei a conversar com meus pais. Nessa ocasião, Papai perguntou-me: "quem era o advogado de defesa, que os saldou ?" Disse-lhe o seu nome. Em seguida, Papai afirmou: "Meu filho, ele é um excelente advogado".
Outro fato ocorrido na mesma ocasião, que muito me sensibilizou, diz respeito à instrução e julgamento de uma ação penal, proposta contra um jovem, pelo uso de substância tóxica.
Sempre tive por costume julgar as ações criminais, em gabinete, utilizando todo o prazo previsto em lei, apreciando e sopesando todas as provas produzidas. Nessa ocasião, porém, pretendendo agilizar a instrução e o julgamento da ação, em que era réu um jovem pego em flagrante com tóxico (maconha), achando presente o réu na audiência, após concluir a instrução do processo, resolvi, desde logo, proferir a sentença. Aconteceu, no entanto, algo inesperado: na medida em que ditava a sentença, na presença do réu, sentado junto à mesa dos trabalhos, e sendo observado pela sua mãe, que se encontrava fora da audiência, junto à porta com visor de vidro, de onde podia observar tudo que ali passava, notei que o réu ia, cada vez mais, inclinando a cabeça, chegando até a encostá-la na mesa, de forma a demonstrar seu descontentamento pela decisão proferida.
O comportamento do jovem-réu e de sua mãe, no decorrer daquela audiência, ficou gravado na minha mente. Por isso, a partir daquele julgamento, jamais proferi sentença em ação criminal, naquelas mesmas circunstâncias.
Estes são alguns dos fatos que marcaram a minha atividade de magistrado no interior do Estado. São relatos singelos que demonstram a preocupação, que sempre tive no exercício da magistratura, de bem aplicar o direito aos casos concretos, procurando dar a cada um o que é seu e, especialmente, fazendo justiça...